domingo, 20 de setembro de 2009

água nos olhos, parte 15

os meses de casamento se arrastavam, se enrolavam uns nos outros. não havia diferença de verões e invernos. dentro da casa, estava sempre confortavelmente aclimatado.
na primavera, as flores floresciam, e adrielly gotava de olhá-las. achava-as pequenas, frágeis, e tão bonitas. começou um curso de moda pelas manhãs.
eliane conseguiu sua aposentadoria no outono. falava mais de morte, e estava mais amarela. a felicidade do seu sonho consumido se extinguia dia a dia, sem ela perceber. a casa era grande, o seu quarto longe, e pouco via a filha. guardava o rancor de sua vida dedicada à educação, que só tinham corróido suas unhas e deixado seu cabelo cair. passava o dia tentando controlar tudo que era possível, mas sua filha lhe escapava e a babá pouco a ouvia.
isabela, a menininha, tinha uma babá. esta vestia branco e fazia de tudo. brincava, dava mamadeira e beijava. também dava banho quando ela tinha febre, tirava a temperatura, e já trazia olheiras maternais pelos choros intermináveis quando a noite reinava sob o mundo e a pequena gritava, condoída de dores que não se sabia da onde vinha.
o médico voltava na sua rotina normal de trabalho. tinha-a diminuído para poder aproveitar mais adrielly e desfrutar de tudo que ela se prupunha. agora, a comodidade alcançava os braços ousados daqueles dois, e a vida de marido e mulher se adentrava, sem que eles percebessem. agora resolvera dedicar-se ao trabalho. tivera missão cumprida, a amara, e ela não reclamaria. voltara a cultivar o jardim para que ela pudesse admirar as flores. estavam bonitas, faziam sombras no jardim acimentado.
a vida amarelava-se, na ordem das rotinas.


escureceu, a partir do dia em que se descobriu, para desespero de todos, menos do portador, a cegueira.

domingo, 9 de agosto de 2009

água nos olhos, parte doze

o casamento se fez.
adrielly resolvera prender os cabelos, e seu futuro marido, parado ao pé do altar, achou-a mais bonita assim. tinha um coque no alto da cabeça, e uns fios soltos que lhe davam um ar de menina. as flores que tinham resistido ao atentado que sofrera foram pregadas levemente, pelas mãos talentosas da sua mãe. a menina ainda não sabia como se sentia. era assim, como se tivesse sido invadida. toda aquela explosão de felicidade que antes sentia, foi substituída por uma comodidade complacente, mas nem por isso, menos alegre. talvez sua mãe estivera certa em provomer seu casamento naquela noite e lhe dar um pouco do gosto que ela tanto esperara. queria apagar as lembranças passsadas, de todo jeito, e das que seu marido levaria. queria sumir com o pai da sua filha, um fantasma encardido que se arrastava pelos cantos escuros do seu corpo.
o médico sentia-se confuso, mas não menos que antes, pois tinha certeza que amava a pequena. isso porque sabia-se que o amor era feito de sacrifícios, era feito de promessas, era um tal de fechar os olhos e acreditar só no que a boca da sua amada lhe dizia. e era isso. era isso, a amava, e iria se casar, não importasse tudo isso. queria a proteger, guardar dentro da sua casa, seu coração, para que nunca mais aquele homem toque na sua menina. ele nunca mais a veria. nunca mais.
algumas pessoas desertaram da igreja, estava mais vazia que antes, mas isto serveria. adrielly entrou, radiante como quisera, com o sorriso maior do mundo. ninguém diria que momentos atrás, estivera em desespero silencioso, em crise interna, tendo suas feridas quase cicatrizadas, abertas, sangradas, escancaradas. parecia que aquilo lhe servia como curativo. ao menos, um temporário.
e os instrumentos fizeram-se músicas, os tons se trombaram, a melodia trouxe de volta a paz e a promessa do amor eterno. e as palavras do padre, cansado e um pouco incomodado, numa missa rápida, com a benção de Deus. os olhos de eliane, chorosos, o sorriso constante, a filha ali, o véu sendo levantado, o beijo ingênuo, a mão do padre os abençoando, ai meu Senhor, meu sonho se cumprindo, aqui na minha frente, ai meu Senhor, obrigada por este momento.
no final da cerimônia, agora marido e mulher, ele lhe beijou a testa e disse que pedira que tocassem uma música para ela. era bonita, e ele cantou, no seu ouvido, para dentro de sua alma-menina... "vem ver que ainda vale o sorriso que eu tenho para lhe dar....".
a festa foi pequena, vinho do porto e massa recheada, adrielly descobrira-se cansada demais para aproveitar. sempre pensara que ia ser uma noiva dançante, animada e sorridente. só queria ir se deitar, e confessou isto ao médico, seu marido.
recolheram-se, despediram-se, receberam todos os votos de felicidade.
fizeram amor com carinho e cuidado, entre as flores naturais que se desprendiam do cabelo de adrielly. dormiram abraçados, nus, feitos como vieram ao mundo, até não poderem mais; para poder sonhar com a noite serena e doce que perduraria para sempre nas suas vidas conjugadas.

p.s.: não, eu não desisti e acabei com a história. não pensem que mudei meu estilo trágico. uma história minha não terminaria com uma noite feliz de casamento HA-HA-HA.
p.s. 2: a música é morena dos olhos d'água do chico - ora eu tinha que enfiar em algum canto esta música, perdoem a incoerência que isto pode levar.

domingo, 12 de julho de 2009

água nos olhos, parte onze

o médico estava já no altar, elegante sem seu terno preto e clássico, colecionando aflições de pré-casamento e repensando milhares de vezes se estava fazendo a coisa certa. se adrielly seria sempre aquela menina dócil e fresca que o fazia sentir borboletas em seu estômago. e se seus olhos fossem suficiente para fazê-lo feliz o resto da vida. suas dúvidas rodopiavam, em ciclos sem fim, sem encontrar nenhuma resposta. no fundo, gostaria que adrielly adrentasse logo e acabasse com aquele sofrimento inútil.
eliane, adornada por aquele vestido longo e verde presenteado pelo futuro genro, começava a se preocupar. viu a moça que cuidava da ordem das coisas da igreja e lhe sussurrou que fosse ver onde estava a noiva, e ela logo se apressou a passos rápidos. olhou para o futuro genro em pé, esperando pateticamente, e lhe correu que suas feições não mostravam a ansiedade que deveria. passaram alguns minutos, em que a dúvida do homem se transformava em agonia de espera, e a angústia da mãe aumentara, ao pensar que sua filha havia desistido da vida linda que estava escrita em seu destino. a moça voltou apressada, e comunicou aos pés do ouvido do noivo.
- Senhor, tem um homem segurando sua noiva. quer que eu chame a polícia ou...
antes que terminasse a frase, o homem desembestou pelo tapete vermelho, recebendo olhares curiosos das poucas pessoas que ocupavam os bancos.
eliane, pressentindo o pior, mas sem ter ouvido nada, resolveu ir correr atrás, com o coração na boca e as mãos já trêmulas. encontrariam sua filha traindo em frente a igreja? bêbada e estrupiada? ou... talvez... aquele canalha? o carma, o diabo encarnado de adrielly.
olhou ansiosa para alguma das amigas dela, que estavam também já gritando possibilidades dignas de romances baratos para o sumiço da menina, e perguntou lhes baixinho se tinha como o canalha vir a saber do casamento. as três já sabiam de quem se tratavam sem a menção de seu nome, como se isto fosse maldição. uma delas iluminou-se com esta notícia, e contou, com mais êxtase que arrependimento, que comentara com seu marido e este era muito chegado do referido.
tomou de assalto a realidade do advento, antes que a comprovasse, e agora mais do que nunca, a raiva e a ansiedade inundavam todos os seus poros reecheando-a das mais diversas possbilidades daquele encontro. ao abrir as portas da igreja, pouco depois do médico, que tivera contratempos com a organizadora, que insistia em dizer que era melhor ligar para a polícia, pois podia ser um assassino em série. ele havia derrubado a moça no chão, sem noção de sua força masculina e o ardor prenunciante de tragédia que tomava conta de seus espírito agitado. ambos viam adrielly, que chorava alto entrecortado por soluços infantis, e que ao ver seu futuro marido e sua mãe, tentou, com mais vontade, se desvincilhiar dos braços fortes do homem que a segurava.
- largue-a já! vou chamar a polícia, seu imbecil! largue minha mulher já!
paulo se principiava com a mão fechada em punho e o celular na outra. estava vermelho feito um pimentão, e via-se as veias estouradas nas suas têmporas. era só o que faltava alguém querer abusar de sua florzinha no dia do casamento, era só o que faltava. andava a passos largos, certo de que iria bater até matar o desgraçado, quando uma mão enrugada o puxou. olhou para trás, desconcertado e mais bravo do que nunca, e viu dona eliane.
- espera, não faz nada ainda, deixe comigo. você acaba de conhecer o verdadeiro e infeliz pai da isabela. e ele não é nada fácil, acredite.
o homem, diante da situação, soltara adrielly para fazer parecer que todo o tempo os braços dela também procuraram seu corpo. e podia afirmar, diante de qualquer um, que sentia seus dedos curtos procurarem seu corpo enquanto a segurava em seu choro mudo. agora ria, ria de nervoso, e ria do noivo desesperado, com aquela pose aristrocrática de machão, e que de nada valeria contra sua experiência em brigas urbanas.
- vai embora. você já fez seu show. agora, pode ir. vá embora e nunca mais volte.
elaine empunha a mão firme, e usava o tom que tratava seus piores alunos, quando queria lhes ferir. parecia mestra da situação, e tinha os nervos controlados, como se já tivesse passado diversas vezes por situações semelhantes.
adrielly tinha se afastado do impostor, e tinha o rosto abaixado, os braços caídos, como vergonha de algo que não sabia bem se tinha culpa. cumpunha uma imagem desoladora e aflita, pois emitia um choro baixo e de ritmo lento que tentava se amainar nos fins da tempestade.
o homem olhou para a senhora e novamente para o outro. vinha uma vontade enorme de matá-lo e o encarou. sentindo o olhar desafiador, paulo resolvera gritar, precedendo sem se exaltar, como fizera eliane.
- vai embora, seu desgraçado, que a polícia logo chega. vai embora para conservar um pouco de dignidade em você. deixa essa menina ser feliz comigo, porque com você parece-me que ela jamais foi.
foi até adrielly e transpassou seus braços por sua cintura, beijando sua cabeça.
- eu não posso ver isso, eu não posso ver que nojo que é isso. você não sabe de nada, você nunca vai saber o que rola entre nós dois, e que ela nunca vai amar outro homem como me amou. gosta de ouvir isso, malandrão? gosta? se ela quisesse teria se soltado de mim, mas ela gosta... ela ainda gosta... ela ia fugir comigo se tivessem demorado um pouco mais.
ainda que a noite parecia estar mais escura que o normal, via-se as lágrimas escorrendo pelo rosto do homem, como um rato que pensa ser desafiador, mas o que faz é apenas chorar a presa fugidia.
a boca de adrielly tremia, seu coração revoltava-se insanamente e quando falou, parecia fazer enorme esforço.
- não, eu não amo você, fabrício. eu não amo você desde o dia que você me violentou e o fruto dela, que é a minha filha, acabou por estragar a minha vida. a única coisa que você fez por mim foi me fazer sofrer, e sofrer não é amar, porque eu sei o que é amar... amar... - e voltou os olhos borrados e molhados para o médico que a avaliava atentamente - é você pra mim, é ser feliz... você...
fabrício riu um riso inescrupuloso. eliane se mexeu, incômoda, largada de ser mestre da situação, e abaixou a cabeça, como embaraçada por um segredo taciturno.
- você quis, doçura. e olha! olha, cara, boa sorte com essa vadia. boa sorte com essa vadia mentirosa, e se você quer realmente acreditar nela, não faço questão. mas a minha verdade, a minha verdade é só minha e não a largo de jeito nenhum, é que quando enfiei meu pau, a buceta dela tava toda molhada e quente. teria guardado a porra então, se tivesse como provar, para desmascarar o que essa vadia anda falando de mim. eu vou embora, e eu prometo... eu prometo nunca mais voltar... só se uma buceta me chamar, se é que você me entende.
virou as costas e saiu correndo, pois na esquina já se escutava a sirene policial e seu estardalhaço. na escada, juntava-se uma platéia heterogênea, composta pelos assombrados convidados, inclusive o tio acordado que mostrava uma pancada roxa na cabeça, e por todos os outros sedentos por porrada e sangue. pipoqueiros, mendigos, prostitutas, senhoras em robes, adolescentes risonhos e toda a corja urbana se misturava aos requintados, boquiabertos e um pouco chorosos, condolescentes dos últimos episódios. adrielly voltara a soluçar diante das últimas palavras ditas com verocidade, e escondia o rosto com as mãos, inacreditada daquela vergonha, disposta a odiar eternamente as mãos que escreviam sua história e aqueles olhos verdes glaciais que a torturavam imensamente. tomou o resto do ar que restava em seu peito, e falou com a voz entrecortada e chorosa:
- se você não quiser mais casar comigo mais, eu vou entender, eu... - e recomeçava a soluçar sem concluir pensamentos ordinários que vazavam pelos poros da sua pele.
- adrielly, eu acredito em você, eu acredito em você, florzinha. eu amo você, e nada vai estragar isso. ouviu? eu não darei ouvidos à ninguém a não ser o que você me disser.
o médico, desconcertado diante das tantas lágrimas que saíam daqueles olhos tão pretos e tão arrasadores, queria lhe dizer qualquer coisa que a acalmasse, qualquer coisa que pudesse fazer feliz uma alma que parecia tão ferida que jamais poderia sentir felicidade novamente.
- ele me violentou... e eu nunca vou ser a mesma outra vez, ele não pode negar isso.
- sim, você vai ser, você vai ser a menina alegre e bonita por quem me apaixonei. deixa isso de lado, tudo bem? vamos... deixar o casamento para outro dia, tudo bem?
- não... não... eu não quero adiar, eu quero me casar hoje. se bem que...
sua mãe, que durante o tempo todo, permanecera com a cabeça baixa, entreouviu a proposta do homem e juntou-se aos dois.
- melhor casar hoje, pois assim tudo isso irá se apagar, e vocês poderão ser felizes como planejado. vamos só adiar uma hora, para que ela possa novamente se arrumar e expulsar toda essa gentalha daqui. vem, adrielly, vem, se não só ficarei eu e isabela para assistir o dia mais feliz da sua vida.
a mãe puxou com força seu braço, e adrielly que não queria deixar de olhar aqueles olhos castanhos e acolhedores, que não queria deixar de estar no abraço quente e reconfortador de seu protetor, foi a passos vacilantes.
- mãe, talvez seja melhor adiar, eu estou horrível.
- não seja boba, adrielly, anda.
- mãe... eu não posso. me escuta.
- adrielly, me escuta você. você acha que seu homem vai engulir essa sua história do jeito que você pretende? quanto você acha que mede o amor que ele sente por você? digo por experiência, esses amores pouco duram, e o que resta é a sagacidade da mulher de prender ele entre suas pernas e, também, ao compromisso. vocês tem que se casar hoje, pois assim não dará tempo de ele pensar se quer mesmo levar um pedaço de encrenca para vida dele, que é o que significa esta família, e eu bem sei disso. você tem que casar agora, enquanto ainda resta dó no coração dele.
adrielly sentia-se enojada a cada palavra que sua mãe pronunciava, rapidamente e com frieza, sem medo que aquilo lhe soasse pior do que ouvira de fabrício.
- você não entende nada de amor. ele me ama de verdade, e eu o amo também. você tem inveja porque nunca teve um amor assim. e fala como se eu fosse culpada, como se eu fosse mentirosa. - recomeçava a soluçar, como se quisesse expelir aquela frase fazia muito tempo - você nunca acreditou em mim, mãe.
eliane parara de andar até o carro e olhou nos olhos perdidos em lágrimas de sua filha. abraçou-a, silenciosamente.
- casa hoje, se tem certeza do seu amor. casa hoje, se não tiver pensando em algum canto desta cabecinha teimosa, se o fabrício é o amor da sua vida. se você me provar isso, eu acreditarei em você. de pés juntos, até o final da minha vida.
adrielly enguliu o choro e limpou as lágrimas com as costas da mão.
- tudo bem, mãe. vamos logo com isso.

(...)
me sinto como um escritor de folhetins populares que o faz só para ganhar dinheiro. no caso, não ganho nem dinheiro, e nem tem público, mas ainda me parece uma história fraca e sem real valor.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

água nos olhos, parte dez

- você tá muito bonita, adrielly.
quem entraria com ela era o seu tio, na falta de um pai há muito ausente que apenas deixara uma aposentadoria. adrielly lhe sorriu, nervosa. os cabelos negros se intercalavam com flores brancas e naturais. quis deixá-los soltos, a cobrir as costas morenas à mostra. apertava os caules, nervosa, das rosas vermelhas em forma de buquê que trazia em suas mãos. seu peito arfava, e era tanta felicidade dentro dela que achava que explodiria. o carro parecia andar muito lentamente, e os ponteiros do relógio do seu tio pareciam zombar de sua felicidade. lá fora, o mundo apenas passava sem que ela prestasse atenção em qualquer imagem, apenas na sua própria dando os primeiros passos de seu sonho realizado. mal percebeu quando o carrou parou diante da imponente igreja que se erguia como um monumento de promessas e juras infindas. o motorista lhe abriu a porta, e ela esticou as pernas levemente e saiu com delicadeza. seu tio disse-lhe que ia fumar um cigarro para lá, pois não queria estragar seu perfume. ela consentiu, silenciosa. não queria falar nada, pois tinha medo que qualquer palavra ou ação imprevisível pudesse estragar tal momento tão esperado.
viu-se sozinha na escada da igreja. repentinamente, sentiu mãos frias tamparem seus olhos.
- o que é? tio, você vai estargar minha maquiagem.
e a voz no seu ouvido, baixa como um sussurrar de cobra cascavel, apavorou-a.
- não sou seu tio, doçura.
sentiu a brisa de suas palavras eriçarem os pêlos da sua nuca. agarrou aqueles dedos dominantes e tirou de seus olhos. queria comprovar, com todos seus sentidos atentos, a desgraça consumada, emudecida em seu medo mais terrível. diante dela, se portava como anos atrás, aqueles olhos verdes glaciais.
- que é que você faz aqui, caralho?
ele riu, um riso de lobo, que mais lhe parecia um uivo. só agora percebia como seus dentes amarelados pelo fumo eram pontudos.
- caralho, digo eu, doçura, como é que você se casa e nem me convida?
sentiu seu bafo de álcool e a impetuosidade daquela voz, que era vacilante e imponente ao mesmo tempo. olhou para os lados, procurando por alguém, clamando por seu tio.
- vai embora. me deixa ser feliz...
- feliz? como você acha que eu me sinto? qual é seu plano, princesa? vai colocar o nome desse babaca na nossa filha também? não, deixa eu adivinhar. aposto que você só se casou com ele porque ele tem dinheiro. certa você. mas eu duvido, ah... eu duvido... duvido que ele te fez feliz como eu.
seus olhos verdes inundavam-se em lágrimas, mas logo as limpou com as costas da mão. pegou, com suas mãos um pouco molhadas, nos braços despidos de adrielly.
- me solta, eu vou chamar meu tio.
- calma, doçura, eu só estou te lembrando como você gosta do meu toque... e seu tio... seu tio não vai acordar por muito tempo.
riu novamente.
- o que é que você fez com ele, seu animal?
- nada, calma. eu não ia apagar o velho. mas pára, pára de gritar. eu só quero conversar com você. vem aqui.
ele a puxou para perto de seu corpo. acariciava sua cintura ornamentada, afagava seus cabelos longos.
- vem, foge comigo. deixa a isabela aí. vem, vem comigo, vem, amor, vem, doçura. aqui, eu sou teu homem, só teu.
adrielly sentia aquelas mãos percorrem seu corpo, as lágrimas despencavam de seus olhos, a garganta ardia, como um nó, um nó dentro da sua alma, que arranhava sua ferida mais exposta, ainda mal cicatrizada, que ardia, sangrava, sangrava. tentou se desvenciliar, mas percebeu que quanto mais seu corpo se rebelava, ele a apertava mais contra seu corpo.
- por que você tá chorando, doçura?
sua boca tremia.
- não me machuca, por favor.
- por que diz assim? eu nunca te machuquei. você é minha menina, só minha.
ela beijou seu pescoço.
- como você tem coragem de dizer isso? você... acabou comigo... me deixa... em paz. me deixa, agora, ou eu vou gritar.
adrielly sentiu as lágrimas quentes dele molharem seu ombro. os dois soluçavam baixo, quase em harmonia, a disperdiçar lágrimas que lhes faltariam no futuro, por chorarem eternamente pelas imagens do passado.


(e se fosse um filme, filmaria adrielly ao som de 'morena dos olhos d'agua - chico buarque'.)

domingo, 10 de maio de 2009

água nos olhos, parte nove

então, quase chegava o dia esperado. adrielly riscava todos os dias do calendário pendurado em cima da sua cama, que em tempos de ir viver na casa do seu futuro marido, sentia profunda repugnância. já tinham acertado com o dono da casa, para que suspendesse o contrato de aluguel. era só ansiedade e ligava todos os dias para suas amigas, para inundar-lhes com a sua alegria e ajustar com elas para que tudo saísse conforme queria. gostava de assim, sentir seus uivos de alegria pela amiga, e pontadas de inveja muda. desde que ficara grávida, sentia-se arrasada e de má sorte, e sempre que ficava sozinha, comparava a sua vida à das amigas, caindo em desespero. uma delas fazia faculdade, a outra trabalhava e tinha um bom marido, porém desempregado, a outra era sustentada pelo pai e nada mais fazia que curtir a vida. por um tempo, se afastara delas, abandonada pela lástima, e sem querer que ouvissem seus acasos invertidos. não precisava delas para enxugar suas lágrimas. depois que isabela desmamou, começou a sair com elas, e mesmo desgostosa, esquecia-se das suas infelicidades, dos choros constantes da filha, das lembranças aterradoras, todos os finais-de-semana. porém, antes de a sorte apresentar sua tez sorridente, lhe doía essa vida sem destino, que se definia pelos berros da filha, pelo sorriso amerelado e cínico da mãe e de parceiros que nunca ligavam no dia seguinte. agora, sentia-se no topo, e não mais recebia consolos de suas amigas, mas sim espantos da guinada que sua vida dera.
mas quem mais tinha essa felicidade repleta era eliane. fazia chás para seu futuro e oficial - pela primeira vez - genro, com medo que ele escapasse antes do casamento se realizar. aceitara, pela filha, comprar umas roupas novas, pois só tinha cores cruas e desgatadas no armário. fizera as unhas, e até tornara-se menos rígida com seus alunos. cuidava de tudo que era pertinente ao casamento, principalmente quanto à igreja, e deixando claro ao padre que sua filha era virgem perante aos olhos de Deus. e agora, tinha os olhos cheios d'água ao ver a filha pela primeira vez vestida de noiva. todo rendado, com mangas três quartos, cobria os pés, o véu de tecido transparante, a pele morena contrastante com o branco virginal, flores costuradas com strass cristalizados. as amigas mexiam aqui e ali, reclamavam a altura do véu, invetavam penteados. as adrielly não podia tirar os olhos da sua própria imagem refletida no espelho, como não podia arrancar o sorriso permanente que se instalara nas suas feições suaves.
a costureira fazia as última marcações com os alfinetes, uma senhora gorducha e de roupas gastas, um pouco mal-humorada. a sua filha acompanhava, que era boa penteadeira, e elogiava-a a todo momento, como era magra e bonita, como era jovem e delicada. queria pôr umas flores brancas naturais nos seus cabelos, e ela concordava dizendo que seu amado a chamava de florzinha, e seria tão tudo bonito. isabela quieta, olhava a mãe, assustada, e brincava com pedaços de tecidos brancos, sem nem perceber.

quem menos se preocupava com tudo isso era o médico, que apenas sorria em ver a sua pequena cada vez mais feliz. apenas quis arranjar uma boa babá que lá morasse, pois não queria se preocupar em cuidar de crianças todo o tempo. comprou passagens para a lua-de-mel, para um lugar perto, pois não podia tirar licença grande. dias antes, enfiou-se eum uma sombra de dúvidas se estaria preparado para receber toda a corja, e mudar abruptamente o seu modo de vida. pudera ser tudo mais simples, e que tivesse a pequena nas horas ardentes na cama, ou nos carinhos sossegados e matinais.

terça-feira, 21 de abril de 2009

água nos olhos, parte oito

quando ainda tinha dezesseis anos, poucos e sonhadores dezesseis, adrielly passava todos os dias por uma loja de vestidos de noiva. com dezesseis, a vida parecia simples. iria se apaixonar, iria se casar, com véu e grinalda e buquê e festa com vinho à vontade, iria ter filhos, iria ser feliz. porém, deram de entortar as linhas previsíveis da vida, deram de desfazer o destino sonhado, deram de trazer-lhe o contrário doloroso. quando descobrira a gravidez indesejada, pertubada e triste, branca como uma vela, cheia de fogo e dor, foi chorar em frente à loja. olhava os vestidos, os olhos aguados, olhava o branco, a renda, florezinhas, felicidade prometida, falecida. nunca contou à ninguém. enfiou-se em uma carapaça cheia de modernidades, e passou a dizer para os outros que casamento era careta, ela era livre, sempre livre. agora, sentada na cama, sentia vontade de chorar. não mais frustração, mas um vislumbre de um sonho há muito esquecido.
- amor, quero me casar de branco, quero um buquê de rosas vermelhas.
ele sorriu e continuou a ver a televisão.
- amor, vai ser uma grande festa?
- eu pensei numa coisa pequena, só nós, sua mãe, a isinha, o padre.
- por que não seus amigos médicos, seus parentes, bastante gente, uma festona? eu sei que é caro, mas...
- não é caro, florzinha, mas eu não gosto dessa gente, eu gosto de você, só. o que é que você tem, por que esses olhos inundados?
ela beijou sua bochecha.
- é que eu sempre quis me casar.
- eu sei, florzinha. eu convido minha irmã, é minha única parente viva, só.
viu que ela continuava amuada, minguada, pequena naquela cama grande. seria seu segundo casamento, todos aqueles ditos amigos sabiam da catástrofe que fora seu primeiro, não precisava de motivo para que eles fofocassem sobre sua vida íntima.
- você compra o vestido que quiser, vai ser a noiva mais linda do mundo.
- e minhas amigas, não?
- sim, meu amor, agora vem aqui, fica calma, deita aqui, deixa eu te sentir.
adrielly se acomodou em seus braços, sorriu, serena. imaginou a felicidade da mãe, os olhinhos contentes, sinceramente contentes, desde o dia que isabela nascera. adomerceu nos braços do seu homem.

terça-feira, 17 de março de 2009

água nos olhos, parte sete

o domingo se esvaía lentamente. a mesa estava bonita, com uma toalha xadrez e jarras de leite e água quente e café, com uma jarra de flores brancas de miolo amarelo no centro. sentia-se o cheiro de pão de queijo caseiro da esquina. adrielly não conseguia parar de sorrir. estava bonita, com uma tiara de oncinha que prendia os cabelos para trás e deixava ver como irradiava. do seu lado, o médico tinha sua mão sobre a dela, as mãos firmes e ásperas que pareciam não combinar com aquela situação. no colo de uma avó cheia de falatórios, isabela brincava com seu pão de queijo. eliane olhava com avidez a todo momento o homem ao lado da sua filha, sem querer perder nenhum segundo da sua realização. queria poder chamar sua empregada em roupa uniformizada para recolher os pratos, pois parecia-lhe, aquela, uma cena irreal extraída de um script de novela. mas ela não gostava de empregadas, e não achava que eram úteis, elas quebravam e roubavam, e roubavam maridos. o que enchia seu coração dessa felicidade que parecia apenas televisiva, era o orgulho da sua filha. uma menina bonita, crescida, cheia de erros, mas merecedora de todos os troféus. fora miss duas vezes quando mais adolescente.
o médico aparecia muito nos quatro meses que se seguiram de sua última noite. além de gostar de ver os dentes amarelados da sua sogra de cabelos pintados, a menina tinha muita febre. sempre cuidara de crianças, mas tinha perdido as esperanças em ser pai novamente. ainda lhe ardia os olhos e incomodava a alma, quando ouvia aquele choro que pedia o carinho do homem, mas sentia-se bem em saber que alguma criança precisava do seu amor, e não somente da técnica. gostava muito de adrielly. para ela, quase nunca tinha tempo ruim. pensava na possibilidade de levá-la à sua casa, intimidade máxima concedida. no momento que averiguava isso, ela levantara para recolher as xícaras e dera-lhe um beijo molhado nas têmporas, acompanhado de um sorriso que parecia embalado numa música de ninar. decidira-se. dera um beijo na nenê, prestava atenção nas últimas palavras de eliane e pegava nas mãos da sua menina, querendo falar-lhe.
saíram, o quintal acimentado parecia-lhe de extremo mal-gosto.
- quer conhecer minha casa?
adrielly sentiu o coração retumbar. ele estava abrindo-lhe as portas, todas as portas, definitivamente. percorreu pelo seu corpo um arrepio sem dono nem sorte.
- claro, meu amor.
abraçou-o e transpassou os braços pela nuca. beijou a boca dele e sorriu.
- agora?
- ééé... agora?
sobressaltou-se.
- sim... por favor.
mordeu os lábios devagar e escorregou uma das mãos pelo coz da calça jeans dele. ele sorriu aquele sorriso maníaco, aquele mesmo que a fazia revirar os olhos enquanto doía-lhe a garganta.


ela não imaginaria aquilo. aquela casa poderia ser uma das fotografas em revistas de decoração e arquitetura que ela comprava para ler no banheiro. seus telhados se covertiam em cores vivas vermelhas sobre paredes paredes brancas espaçadas por grandes vidros espelhados. havia canteiros de flores e dois portões ornamentados de azul escuro. no andar de cima, uma sacada de portas azuis a esperava. seus olhos espantavam cada vez que captavam algum sonho obscuro seu. tentou não mostrar tanta surpresa. por dentro, era cuidadosamente decorada, e combinada com as mais diversas cores. sofás em tons beges, televisão de plasma que ocupadava quase uma parede lateral, quadros em tons pastéis, abajoures altos de madeira maciça. subiu as escadas delicadamente. havia porta-retratos sem fotos. poderíamos ocupar eles já, já, amor.
- é lindo, amor.
- você que é.
despiou-a carinhosamente e beijou suas partes mais recônditas e quentes, alucinou-se nas suas curvas e arrancou-lhe sorrisos de êxtase.
ela parecia triplamente extasiada por estar naquela cama, por olhar aquelas cortinas, e maravilhada pelos eletrodomésticos e estupefata pelo closet. decidiu que faria tudo que ele pedisse, com todo fervor que conseguisse. disse-lhe isso num sussuro, lambeu suas orelhas, chupou seu pênis sem cerimônia, enterrou suas unhas nas costas, ficou de quatro no ato, gritou, mesmo se só sentisse cócegas.
e enquanto ele a engolia por trás, suava e sorria, gritou antes de gozar, em um último fôlego que restava:
- vamos... nos... casar!
ela gemeu uma eternidade, e mais tarde, agradeceria à seus olhos por o fazer afogar em tanta umidade, e à sua vagina, por o fazer prisioneiro em tanto calor.